Quarenta anos depois da formatura, a 19ª turma de Medicina da FMB/Unesp de Botucatu queria ouvir o patrono ler a carta que ele havia escrito para eles. Só havia um problema: o professor Marcello Fabiano de Franco já não estava vivo para lê-la.
O pedido
Uma médica da turma nos procurou com um pedido que não se parecia com nenhum briefing de campanha. A 19ª turma se reencontraria em Botucatu para celebrar 40 anos de graduação, numa sessão solene da Congregação da Faculdade de Medicina. E havia uma carta.
A carta tinha sido escrita quatro décadas antes pelo professor Marcello Fabiano de Franco, quando ele aceitou o convite para ser patrono da turma. O texto existia, guardado. A voz, não — o professor já era falecido, e a homenagem seria in memoriam.
O que a turma queria não era um vídeo sobre o patrono. Era o patrono lendo a própria carta, com a própria voz, para a mesma turma, 40 anos depois.
O que tornava o pedido difícil
Um vídeo comemorativo comum se resolve com fotos antigas, uma trilha e uma locução em off. Nada disso servia aqui: uma locução de terceiro leria as palavras dele com a voz de outra pessoa, e o efeito seria justamente o oposto do pretendido — lembrar a todos que ele não estava lá.
Recriar uma voz exige material de origem. E material de voz de alguém que se formou professor décadas antes da era dos podcasts é escasso: não há arquivo de gravações, não há trilha isolada, não há estúdio. Sem áudio de referência suficiente, não há o que treinar.
Havia ainda a restrição mais dura de todas, que não é técnica: o resultado precisava soar como homenagem, não como truque. Uma voz recriada que chega perto sem chegar lá produz estranhamento — e estranhamento, numa sessão solene com a família e os colegas na plateia, seria um desastre.
A matéria-prima: uma entrevista no YouTube
A solução começou por uma busca de arquivo. Encontramos uma entrevista que o professor havia concedido e que estava publicada no YouTube — imagem e áudio dele, falando naturalmente, em duração suficiente para servir de referência.
Desse material recortamos os trechos limpos: fala contínua, sem sobreposição de perguntas, sem ruído de sala, sem música. Esse recorte virou o conjunto de treinamento. Não foi um detalhe de produção — a qualidade do recorte é o que determina a qualidade da voz. Áudio sujo produz voz sintética; áudio limpo produz timbre.
Como foi feito
- Levantamento de arquivo. Localização da entrevista pública do professor no YouTube, a única fonte disponível com voz e imagem dele.
- Recorte e limpeza. Separação dos trechos de fala contínua e descarte de tudo que tivesse ruído, música ou voz de outra pessoa por cima.
- Treinamento da voz. Criação do modelo de voz no ElevenLabs a partir desse recorte, com ajuste de entonação até o timbre corresponder ao da gravação original.
- Leitura da carta. Geração da locução do texto integral da carta com a voz treinada, cuidando de ritmo e pausas — uma carta se lê devagar, não se locuta.
- Vídeo e redublagem. Montagem do vídeo com a imagem do professor e substituição do áudio original pela leitura da carta, sincronizada à imagem.
- Entrega para a exibição. Exportação da peça no formato de projeção do Salão Nobre, onde foi apresentada durante a sessão solene.
O vídeo
Esta é a peça exibida durante a sessão solene: o professor Marcello Fabiano de Franco lendo, com a própria voz, a carta que escreveu à 19ª turma quando aceitou ser seu patrono.
A cerimônia
A homenagem aconteceu na sexta-feira, 21 de agosto de 2026, no Salão Nobre da Faculdade de Medicina de Botucatu, em sessão solene da Congregação que reuniu os médicos da 19ª turma, familiares, professores e dirigentes da Universidade e do Hospital das Clínicas.
A própria Faculdade registrou o momento em sua comunicação institucional:
“Um dos momentos de maior emoção foi a homenagem in memoriam ao professor emérito Marcello Fabiano de Franco, patrono da 19ª turma. Durante a cerimônia, foi apresentada, com o uso de inteligência artificial, uma reprodução em vídeo de uma carta escrita pelo professor aos alunos há 40 anos, quando aceitou o convite para ser patrono da turma.”
— FMB/Unesp celebra 40 anos de graduação da 19ª turma de Medicina, Assessoria de Comunicação e Imprensa da FMB/Unesp, 25/08/2026
Na mesma solenidade, representantes da turma receberam cópias da carta, os médicos refizeram o Juramento de Hipócrates quatro décadas depois da formatura e foi descerrada uma placa alusiva à data.
O cuidado que um vídeo assim exige
Recriar a voz de alguém que morreu não é um recurso de produção como qualquer outro, e tratá-lo como se fosse é o erro mais fácil de cometer aqui. Três decisões definiram o trabalho:
- Nada de palavra inventada. A voz recriada lê exatamente o texto que o professor escreveu, sem uma frase acrescentada, sem adaptação, sem “melhorar” a carta. A tecnologia entrega a leitura; o conteúdo é integralmente dele.
- O uso da IA foi declarado. A própria Faculdade descreveu a peça, em sua comunicação oficial, como uma reprodução feita com inteligência artificial. Homenagem se faz às claras — o efeito emocional não depende de ninguém ser enganado.
- A iniciativa partiu de quem tinha legitimidade para tomá-la. O pedido veio da própria turma, para uma homenagem institucional da Faculdade ao seu patrono. Não é o tipo de trabalho que se propõe de fora para dentro.
O que este case mostra
- Arquivo público é matéria-prima. Uma entrevista antiga no YouTube foi suficiente para recuperar um timbre que ninguém mais teria como gravar.
- A limpeza do material vale mais que o modelo. O que separa uma voz que emociona de uma voz que soa robótica é, quase sempre, a qualidade do áudio de referência — não a ferramenta.
- IA em vídeo não serve só para vender. O mesmo conjunto de técnicas que produz conteúdo comercial serve para preservar memória institucional — e é aí que costuma causar mais efeito.
- O limite é combinado, não técnico. Hoje quase tudo é possível de fazer. O que define se deve ser feito é a autorização de quem tem legitimidade para dá-la.
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